A Pesquisa Aprimorada do Clown na Cia

A improvisação é a fonte das nossas pesquisas e também o desafio da própria apresentação, abrindo espaço para o risco e a troca com o espectador, que, através do seu olhar e de sua resposta, modifica constantemente o acontecimento que se desenrola à sua frente.

Os palhaços possuem uma vida social quase como um cidadão normal, porém, em seu modo peculiar de comportamento ele vira ao avesso todas as convenções. Sabe-se da fama dos palhaços circenses, que se comportam a revelia da ordem dominante no espetáculo e que, muitas vezes, fazem críticas diretas a vida social e política da cidade onde se apresentam. Portanto, podemos tomar o palhaço como um subversivo e como tal, vivenciar essa experiência nos permite reavaliar nossa própria atitude perante o contexto político contemporâneo. Nas etapas de pesquisa e criação de nossos espetáculos tomamos diversos textos que tratam da situação em que se encontra a sociedade contemporânea, chamada por alguns filósofos de pós-moderna, ou ainda de pós-industrial, sociedade high-tech, sociedade de consumo, entre outras definições. A saber, por motivo de compreensão mútua utilizamos a denominação de sociedade pós-moderna. Durante tais estudos levantamos questões culturais e políticas que tratam, sobretudo, das relações interpessoais, que nos interessam na abordagem do palhaço e do convívio com o espaço público. Em nossa era informatizada e virtual, parece que se perde cada vez mais o contato físico com o outro.

Nosso projeto mais novo se chama “Clowneando” formado por um trio de palhaços. Os palhaços podem ser identificados como “Branco” ou “Augusto”, dependendo de algumas de suas características. O “Branco” é aquele que geralmente representa a ordem, os valores sociais, apesar de não estar completamente adequado a estes, é menos ingênuo que o “Augusto” e detém sempre o poder na relação com este último. Já o “Augusto” é mais ingênuo, aquele que não se adéqua à norma, que foge a qualquer convenção social e, mesmo que involuntariamente, sempre destrói qualquer possibilidade de ordem. Tradicionalmente é o “Branco” quem prepara para o riso, conhecido como o “escada”, ele propicia as situações para que o “Augusto” cometa suas trapalhadas e nessa dinâmica cria-se a cena, sempre havendo uma relação entre um palhaço “Branco” e um, ou mais, palhaços “Augustos”. Entretanto, é importante salientar que estas características apontadas não são imutáveis. Cada “clown” seja essencialmente “Branco” ou “Augusto” pode se apropriar e revelar diferentes características de comportamento, dependendo sempre de seu parceiro e da relação que se estabelece entre eles. Não são características imutáveis.

Alguns estudiosos apontam no teatro contemporâneo uma busca pela materialidade do teatro, um resgate, talvez de sua principal característica, a ação presencial. Podemos pensar a partir desse dado que há um interesse em deixar a virtualidade, cinematográfica, televisiva, da internet, de lado, para experimentar algo que nos coloque de fato em contato com o real. O clown aponta para essa possibilidade, já que a presença e a interação de atores e público são imprescindíveis para que algo aconteça, ou então, se levarmos em consideração a atitude sincera e livre de subterfúgios que filosoficamente embasa o trabalho do clown. O nome “Clowneando” é uma brincadeira com a palavra clown, correspondente a palhaço na língua inglesa, associada ao gerúndio da língua portuguesa. Numa tradução literal ficaria “Palhaçando”, uma forma de representar o estímulo que move a realização do trabalho. Pretendemos atingir a todas as faixas etárias, sendo um trabalho acessível a um público amplo e diversificado. Neste projeto há uma preocupação com a humanização da figura do palhaço, tornando-o mais próximo, menos caricatural, sem, no entanto, perder algumas de suas características habituais, como a maquiagem exagerada e, é claro, o nariz vermelho. A pesquisa e a realização dos figurinos pautam-se por este pensamento.

Entre nossos referências de pesquisas estão autores que tratam tanto de questões relativas ao clown, suas características e história, como Dario Fo, Luís Otávio Burnier, Mario Bolgnese, entre outros; e também filósofos e artistas que expressam em suas obras questões da vida contemporânea e problemáticas da arte, como David Lapoujade, Roland Barthes, FredricJameson, Luis Carlos Fridman, Jean-François Lyotard, Gilles Deleuze, AntoninArtaud, Erwin Wurth, Jan Family, entre muitos outros que sem dúvida então na nossa lista de referências.

Até então, temos desenvolvido nossa pesquisa sobre a linguagem clownesca em cenas e peças no palco, utilizando como temáticas algumas questões apresentadas aqui. Nosso trabalho mais recente, que ainda consideramos um estudo cênico e não um espetáculo, também leva o nome de “Clowneando”, justamente por este nome conter em si uma definição que, como também já foi citado, nos conduz em nossa pesquisa. Estamos palhaceando e buscando respostas para nossas indagações filosóficas e cênicas.